Salada de cenoura e algas, com molho de gengibre e lima

Tradução por: Marta Silva

Recentemente, foi sugerido na secção dos comentários que partilhasse receitas com algas, mais especificamente com wakame. Assim, quis deixar-vos com algumas dicas culinárias para a preparação e confeção das algas que se encontram mais frequentemente nos mercados, e, claro, algumas considerações nutricionais acerca do seu consumo.

carrot arame salad with tofu, broccoli and brown rice bowl4
As algas, do grupo taxonómico Algae, apresentam uma grande diversidade de organismos, no que diz respeito à morfologia, grau de complexidade, e tamanho, e, podem ser divididas em macro e microalgas. São várias as suas aplicações, desde a extração de compostos como a carragenana e alginato, que exibem propriedades espessantes, gelificantes e estabilizantes de suspensões e emulsões, à utilização como biofertilizantes, bioindicadores, e claro, na alimentação, no estado minimamente processado.
Apesar da abundância de algas na costa portuguesa, o uso destas na alimentação não tem grande tradição em Portugal, exceto para algumas comunidades costeiras nos Açores.

Mas o interesse na utilização de algas na alimentação está a aumentar devido ao reconhecimento do seu valor nutricional, e conteúdo em minerais, oligoelementos, e até de ácidos gordos ómega 3.

arame carrot salad6
COMPOSIÇÃO NUTRICIONAL

A análise da composição nutricional foi feita para uma porção de 8g de algas desidratadas, pois parece ser a porção diária tipicamente consumida na culinária asiática(1).

Proteína: O conteúdo em proteína das algas varia de acordo com a espécie, mas parece variar entre 3 a 47% do peso seco, sendo que a alga Nori (Porphyra tenera) pode chegar aos 47%, e a Wakame (Undaria pinnatifida) apresenta valores entre 11 a 24% do peso seco. Relativamente à qualidade proteica, a informação sobre a digestibilidade proteica é escassa, e o conteúdo em aminoácidos nutricionalmente essenciais como histidina, leucina, isoleucina e valina parece ser próximo ao das leguminosas(1).

Fibra: 8g de algas (desidratadas) fornece, em média, aproximadamente 12,5% da ingestão diária recomendada de fibra(1).

Ácidos gordos polinsaturados: As algas fornecem essencialmente EPA, sendo que a informação relativa ao seu conteúdo em DHA é bastante limitada. A quantidade de EPA nas algas parece variar entre os 79,2mg na alga wakame (8g, desidratada), e os 198,2mg de nori (8g, desidratada)(2).

Minerais e oligoelementos: As algas apresentam um conteúdo interessante de minerais e oligoelementos devido ao habitat marinho. Destes, destaco o conteúdo de cálcio e magnésio de apenas 8g de alga kombu desidratada, e o conteúdo em ferro de todas as algas abaixo descritas(1).
Como também é possível verificar, o iodo é um oligoelemento abundante nas algas, e o seu conteúdo em todas as espécies de algas referidas parece ser superior à ingestão máxima recomendada no indivíduo adulto (1,1mg/dia)(1). Apesar do consumo de algas e sal iodado ser recomendado numa alimentação vegetariana para atingir a ingestão adequada deste oligoelemento, devido ao conteúdo elevado em iodo, e quantidade variável nas algas, recomenda-se precaução no seu consumo, sendo que este não deverá ser superior a 3 a 4 vezes por semana(3).

Tabela

Vitamina B12
: Alguns autores afirmam que as algas, nomeadamente a nori, é uma fonte de vitamina B12 na alimentação vegetariana. Porém, assim como as restantes algas, estas contêm análogos inativos desta vitamina, não devendo por este motivo serem utilizadas como fontes de vitamina B12, podendo mesmo interferir com a sua absorção(3, 4).

arame carrot salad1
Em conclusão, as algas apresentam alguma riqueza nutricional nomeadamente no seu conteúdo em minerais e oligoelementos, e representam uma fonte válida de iodo na alimentação vegetariana. Recomenda-se também alguma precaução relativamente ao seu consumo, devido ao conteúdo elevado em iodo, e, especificamente em relação ao consumo de alga hijiki, dado que pode aumentar significativamente a exposição alimentar a arsénio inorgânico, é recomendável que os consumidores evitem o consumo desta alga(5).

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PREPARAÇÃO E CONFEÇÃO DAS ALGAS

Antes de vos deixar algumas sugestões de preparação e confeção das algas, partilho-vos uma breve apresentação de cada alga, para perceberem de que forma poderá ser utilizada na culinária.

Arame: As folhas grandes pretas desta alga são cortadas e secas em fios finos. Deve ser demolhada durante pelo menos 10 minutos, e pode ser adicionada a sopas ou estufados. Como é pré-cozida durante o seu processamento, requer pouco tempo de cozedura.
Dulse: Alga de cor avermelhada que não requer cozimento. Os seus flocos podem ser utilizados como condimento em saladas, sopas e estufados.
Hijiki: Alga de cor preta que se assemelha a fios de esparguete. Deve ser demolhada durante alguns minutos antes de cozer, para reduzir o sabor salgado. É frequentemente adicionada a estufados, sopas ou saladas (depois de cozida).
Kelp: Encontra-se frequentemente vendida em pó, e pode ser utilizada como condimento, para dar um sabor mais apurado a saladas, vegetais, cereais ou leguminosas cozidas.
Kombu: É adicionada à cozedura das leguminosas para melhorar a digestibilidade. Pode ser adicionada durante a preparação de caldos, para dar mais sabor aos mesmos, e posteriormente retirada.
Nori: É vendida na forma de folhas finas, e é frequentemente utilizada para fazer rolinhos de sushi (makizushi). Também pode ser tostada e utilizada como condimento, partida em pedaços salpicada em saladas ou estufados.
Wakame: Deve ser demolhada durante pelo menos 10 minutos. Posteriormente pode ser cortada em fatias finas, e adicionada a sopas (sopa de miso), mas também pode ser adicionada a saladas.

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Agora… Como preparar as algas?
– Podem ser incorporadas em saladas, com vegetais variados, por exemplo, uma salada de wakame ou arame com cenoura e pepino cortados em juliana, com fatias de abacate. Ou, pode fazer uma salada que incorpore leguminosas, (como edamame, ou outras), com verduras, temperada com tamari e sumo de laranja, por exemplo. As algas arame, hijiki e wakame devem ser demolhadas e cozidas, e só depois adicionadas à salada.
– Tostar as algas (dulse, nori, e wakame) tal como descrevi nesta receita, e juntar a saladas, como condimento, pelo seu sabor, ou para dar um toque crocante (foto em cima, da esquerda). Recentemente também tentei tostar folhas da alga nori cortadas em tiras pequenas, e juntei à sopa de miso (sugestão da foto da direita).
– Juntar a estufados ou sopas, durante a preparação do caldo, pela seu sabor e riqueza nutricional. Um exemplo clássico da sua utilização é a sopa de miso, mas também gosto de as adicionar em estufados com cubinhos de tofu, tubérculos, cogumelos, ervilhas de quebrar (que se encontram facilmente durante esta época), abóbora, e alguns vegetais de folha verde-escura, condimentados com molho de soja ou tamari, mirin, miso, alho, gengibre ou malaguetas.

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Salada de alga arame e cenoura, com gengibre e coentros
Serve 2

5g de alga arame desidratada
2 cenouras médias, descascadas e cortadas em palitos
1 colher de chá de azeite
Sumo de ½ lima
¼ colher de chá de gengibre em pó
2 colheres de sopa de coentros ou salsa frescos, picados
Uma pitada de sal e pimenta preta

Demolhe a alga desidratada em água a ferver durante cerca de 10 minutos. Escorra a água e reserve.
Corte a cenoura em palitos. Escalde os palitos durante 2-3 minutos em água a ferver. Retire da água a ferver, e reserve.
Prepare o molho da salada, envolvendo o azeite, sumo de lima, gengibre, salsa ou coentros, sal e pimenta preta.
Envolva numa taça a cenoura em palitos, a alga demolhada, e o molho de gengibre e lima. Ajuste os temperos a gosto e sirva.

Pode servir esta salada com leguminosas, tal como sugerido na fotografia da salada de grão-de-bico com rabanetes, pepino, repolho, abacate, e molho de tahini, ou, com tofu (cortado em cubos pequenos, temperado com molho de soja, paprika, gengibre, sal e pimenta preta, e salteado numa frigideira antiaderente seca em fogo médio-alto durante alguns minutos), com arroz integral cozido, verduras a gosto, e amendoins tostados (opcional).

Recipe in English

It has recently been suggested in the comment section that I should share recipes with seaweeds, specifically with wakame. Thus, I wanted to leave you some culinary tips to the preparation and confection of the most common seaweeds: and, of course, some nutritional considerations related to their consumption.
Seaweed, from the taxonomic group Algae, feature a huge diversity of organisms when it comes to morphology, complexity and size; they can be divided in macro and microalgae. Several applications can be considered, from the extraction of compounds such as carrageenan and alginate, which exhibit thickener, gelling and stabilizers of suspensions and emulsions, to the usage as bio fertilizers, bio indicators and, of course, they can be used in a diet at the minimum processed stage.
Despite the abundance of seaweeds in the Portuguese coast, using them as part of a diet is not common in Portugal, excepting some coastal communities in Azores. But the interest in seaweeds as a food is increasing, due to the recognition of its nutritional value, mineral content, oligoelements and omega-3 fatty acids.

NUTRITIONAL COMPOSITION

The analysis of the nutritional composition was performed in a portion of 8g of dehydrated seaweeds because it seems to be the typically consumed daily portion in the Asian gastronomy. (1)

Protein: The protein content of seaweeds differs according to the species, and seems to vary between 3 to 47% of the dry weight, being that the Nori seaweed (Porphyra tenera) can reach 47% of its dry weight in protein and Wakame (Undaria pinnatifida) presents values between 11 to 24% of protein of its dry weight. Regarding the protein quality, information of the protein digestibility is rare; despite that, its content in nutritionally essential aminoacids such as histidine, leucine, isoleucine and valine seems to be similar to the amount found in pulses. (1)

Fibre: 8g of (dehydrated) seaweeds provide, on average, about 12,5% of the fibre’s recommended daily intake.
Polyunsaturated fatty acids: Seaweeds seem to provide essentially EPA, although information related to the DHA content is still very limited. The amount of EPA, in 8 g of dehydrated seaweed, seems to vary between 79,2 mg in the wakame seaweed and 198,2 mg in the nori seaweed. (2)

Minerals and oligoelements: Seaweeds show an interesting amount of minerals and oligoelements given their marine habitat. Of these compounds, I’d like to highlight the calcium and the magnesium content in just 8g of the Kombu dehydrated seaweed and the iron content of all of the seaweeds presented below. (1)
It’s also possible to see that iodine is an abundant oligoelement in seaweeds and its content in all of the here reported seaweeds seems to be higher than the maximum daily intake of an adult individual (1,1 mg/day). (1) The consumption of seaweeds and iodized salt is recommended in a vegan diet in order to achieve the recommended daily intake of this oligoelement; despite that, and due to the high and highly variable content of iodine in seaweeds, these should be carefully consumed, being that the frequency of consumption shouldn’t surpass the 3 to 4 times a week. (3)

Vitamine B12: Some authors consider that seaweeds, mainly the nori variety, could be a source of vitamin B12 in the vegan diet. However, seaweeds contain inactive analogues of this vitamin, reason why they shouldn’t be used as vitamin B12 sources; they may even interfere with this vitamin’s absorption. (3, 4)
With that being said, seaweeds can be considered nutritionally rich, mainly when it comes to their mineral and oligoelements content, representing a valid source of iodine in the vegan diet. However, this aspect can be a double-edged sword and it should be noted that, given their high content of iodine, the consumption of seaweeds should be moderate and somewhat careful. When it comes to the hijiki seaweed in particular, besides the iodine aspect, its consumption should be avoided by humans because it can significantly increase the dietary exposure to inorganic arsenic. (5)

Preparation and confection of the Seaweeds

Before I give you some suggestions for the preparation and confection of seaweeds, I’d like to share a brief presentation of each seaweed, so you can understand a little bit better how they can be used in cooking.

Arame: The big black leaves of this seaweed are cut and dried into thin sticks. It should be soaked for about 10 minutes and can be added to soups or stews. As it’s pre-cooked during the processing, it needs little cooking time.
Dulse: Reddish seaweed that doesn’t require cooking. Its flakes can be used as a flavouring in salads, soups and stews.
Hijiki: Black seaweed that resembles spaghetti. It should be soaked for several minutes before cooking, in order to reduce its salty flavour. It’s often added to stews, soups and salads (after it’s been cooked, contrary to Dulse).
Kelp: Often sold in the form of powder, it can be used as a seasoning, providing a more refined taste to salads, vegetables, cereals or cooked pulses.
Kombu: Added to the pulses’ cooking to improve the digestibility. It can be added during the broths’ preparation, in order to enhance their flavour, and be posteriorly removed.
Nori: Sold as thin seaweed sheets, it’s often used to make sushi rolls (makizushi). It can also be toasted and used as a seasoning, in pieces, speckled into salads or stews.
Wakame: It should be soaked for, at least, 10 minutes. It can posteriorly be cut into thin sheets and added to soups (miso soup, for example) as well as added to salads.

Now… How do we prepare them?
– They can be added to salads, with varied vegetables, in a wakame or arame salad, for instance, with carrots and cucumbers cut into julienne strips with avocado slices. Another option would be, for example, a salad with pulses (such as edamame, among others) with greens, seasoned with tamari and orange juice. The arame, hijiki and wakame seaweeds should be soaked and boiled before being added to salads.
– Roast the seaweeds (dulse, nori and wakame) as I’ve described in this previous recipe and add to salads as a seasoning, because of their flavour, or even to give a crunchy touch (photo above, on the left). I recently attempted to roast nori seaweed leaves as well, cut into small strips, adding them to the miso soup (suggestion on the right photo).
– Add them to stews or soups, during the broth’s preparation, given their flavor and nutritional value. A classic example is adding them to the miso soup, although I also like to add them to stews with tofu cubes, tubers, mushrooms, snap peas (easily found in this season), pumpkin and some other dark green vegetables, seasoned with soy sauce or tamari, mirin, miso, garlic, ginger or chillis.

Carrot and Arame seaweed, with ginger and coriander
Serves 2

5g dried arame seaweed
2 medium-sized carrots, unpeeled and cut into sticks
1 teaspoon of olive oil
Juice from ½ lime
¼ teaspoon of ginger powder
2 teaspoons of fresh coriander or parsley, chopped

Soak the dehydrated seaweed in boiling water for about 10 minutes. Drain the water and set aside. Cut the carrot in sticks. Parboil the carrot sticks for 2-3 minutes in boiling water. Take them from the water and store for a bit. Prepare the salad sauce, mix the olive oil with lime juice, ginger, parsley or coriander, salt and black pepper. In a bowl, mix the carrot sticks, the soaked algae, and the ginger and lime sauce. Adjust the seasonings to taste and serve.
You can serve this salad with pulses, as suggested in the photo of the chickpea with radishes, cucumber, cabbage, avocado and tahini sauce. Or, for example, with tofu (cut into small cubes, seasoned with soy sauce, paprika, ginger, salt and black pepper, all sautéed in a dry nonstick skillet in medium/high flame for a couple of minutes), with cooked rice, greens as desired and toasted peanuts (optional).

1. MacArtain P, Gill CI, Brooks M, Campbell R, Rowland IR. Nutritional value of edible seaweeds. Nutr Rev. 2007; 65(12 Pt 1):535-43.
2. Sánchez-Machado D, López-Cervantes J, López-Hernández J, Paseiro-Losada P. Fatty acids, total lipid, protein and ash contents of processed edible seaweeds. Food Chemistry. 2004; 85:439–44.
3. Silva S, Pinho J, Borges C, Santos C, Santos A, Graça P. Linhas de orientação para uma alimentação vegetariana saudável. Programa Nacional para a Promoção da Alimentação Saudável
Direção-Geral da Saúde; 2015.
4. Mangels R MV, Messina M. The Dietitian’s Guide to Vegetarian Diets: Issues and Applications. 3 ed. ed.: Jones & Bartlett Learning; 2010.
5. Rose M, Lewis J, Langford N, Baxter M, Origgi S, Barber M, et al. Arsenic in seaweed–forms, concentration and dietary exposure. Food Chem Toxicol. 2007; 45(7):1263-7.