Verão

Bolo crumble de morango e framboesa

Frequentemente recebo mensagens de leitores do blog a perguntar-me como é que eu adapto receitas tradicionais de bolos, de modo a torná-los veganos ou mais saudáveis. Confesso que ainda tenho alguma dificuldade em fazer estas adaptações, mas aquilo que tenho aprendido com a minha (pouca) experiência na área da pastelaria vegana, é que as alterações em receitas devem ser graduais, e não devemos esperar que alterações drásticas resultem num bolo saboroso. (Porque, honestamente, farinha de quinoa ou amêndoa, podem ser ingredientes impossíveis num bolo vegano).

Não tenho por hábito adaptar receitas tradicionais com ovos, leite ou manteiga, prefiro pegar em receitas já veganas e fazer adaptações ao meu gosto. Acredito que os bolos veganos acabam por ter procedimentos completamente diferentes dos bolos tradicionais, e nem sempre seguir uma receita tradicional omitindo alguns ingredientes vai correr como o esperado. No caso do bolo que se segue, adaptei a receita da massa deste bolo de limão.

bolo de morangos
Antes de mais, quando fazemos bolos caseiros temos de ter em conta a textura do bolo, que deve ser fofa e coesa. Estas características dependem das proteínas do ovo (ovoalbumina) e do trigo (glúten), que depois de desnaturadas mecanicamente, vão permitir o “aprisionamento” de bolhas de ar formadas através da utilização de fermento químico ou através da formação das claras em castelo, técnicas que permitem que o bolo fique com aquela aparência fofa decorrente da formação das pequenas bolhinhas de ar. Ora, nos bolos veganos o principal estabilizador da estrutura do bolo é o glúten, por isso é que em algumas receitas ainda utilizo farinha de trigo..
Posto isto, relativamente às farinhas, se quiserem fazer um bolo guloso, alto e fofo para impressionar os familiares e amigos, o melhor é utilizarem a farinha de trigo e, no máximo, se quiserem juntar outras farinhas e fornecer alguma fibra, podem substituir até 1/4 do peso da farinha de trigo por outras farinhas, com bons resultados.

Relativamente aos ovos, em algumas receitas tradicionais que utilizam poucos ovos (até 2), como a estrutura do bolo vai depender essencialmente do glúten, é possível omitir os ovos com bastante sucesso no resultado final do bolo. Nestas situações até uso as sementes de linhaça moídas, na proporção de 1 colher de sopa para 3 colheres de água, em substituição de 1 ovo. Porquê linhaça? Porque é rica em fibras solúveis que pelas suas propriedades visco-elásticas permitem o tal “aprisionamento” das bolhas de ar formadas pelo bicarbonato de sódio ou fermento químico. Poderá ser necessário compensar a quantidade de fermento químico ou bicarbonato de sódio relativamente a uma receita tradicional, para que se forme mais CO2. (A utilização de sementes de linhaça também é vantajosa noutras preparações como nas bolachas, biscoitos ou queques).

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Quanto a outros ingredientes: leite, açúcar, manteiga ou óleos acho que não restam muitas dúvidas. O leite pode ser substituído com sucesso por bebidas vegetais de soja, arroz, aveia (…). E incorporando alguns princípios da culinária saudável, tento reduzir o açúcar sempre que possível, não havendo nenhum benefício evidente na substituição deste por xaropes. É possível também substituir o açúcar por purés de fruta ou tâmaras, e esta receita é um exemplo disso. A manteiga pode ser substituída por óleos de qualidade, e tento usar azeite sempre que possível, especialmente em bolos com sabores fortes, como no bolo de chocolate ou em bolos onde o sabor predominante são as frutas, mas também em receitas onde a quantidade de gordura é relativamente pouca. Também tento reduzir a quantidade de gordura substituindo por puré de fruta como o de banana, abacate, maçã, ou até mesmo de pêra. Assim, com a utilização de puré de fruta, podemos substituir parte da gordura e do açúcar, e ainda obtemos bolos mais húmidos e fofos, e também mais saudáveis!

Por fim, resta-me apenas dizer-vos que o insucesso também faz parte do percurso, e se fizerem alguns bolos menos apetecíveis também é normal, mas o importante é aprender com os erros, e continuar a experimentar! Aproveitem as frutas sazonais para fazer bolos diferentes, recheios e toppings criativos como a receita que segue abaixo, com um qb de gulodice. E sempre que possível, fazendo substituições mais saudáveis, mas que não ponham em causa o prazer de comer uma boa fatia de bolo!

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A minha versão do Pad Thai

Parte do encanto que sinto pelo mundo da culinária está relacionado com a necessidade de sermos criativos. Porque não somos capazes de comer o mesmo todos os dias, somos impulsionados pelo gosto do acto de cozinhar a descobrir novos sabores e variações de receitas clássicas. O Pad Thai é uma dessas receitas. Quando ouvi falar deste prato tipicamente tailandês, associei-o imediatamente a um prato com ingredientes como carnes, camarões e molho de peixe. Algo difícil de adaptar. Mas depois descobri umas centenas de adaptações vegetarianas, que incluíam tofu, edamame, vegetais variados, noodles, arroz (…), e inclusivamente o molho era completamente diferente de receita para receita, e podia mudar completamente de ingredientes… No meio de tanta versão, não faço ideia de qual é que se aproxima da original. A culinária tem destas coisas curiosas. Pega-se numa ideia e adapta-se ao nosso gosto, para a tornar ainda melhor, mas ao mesmo tempo reconhecendo que nada nasce a partir do nada, apenas criamos novas versões, e evoluímos.

Pad ThaiNesta versão do Pad Thai, inspirada numa receita do livro “Green Kitchen Travels“, utilizei noodles de curgete e cenoura para lhe dar uma textura mais crocante, mas também para fugir aos tradicionais noodles, e aproveitar este prato quase como se de uma salada se tratasse. (Afinal, não é hoje que começa a Primavera?) No entanto, para uma refeição mais saciante, sugiro que juntem noodles de trigo sarraceno ou outros da vossa preferência. Também juntei tofu e rebentos de feijão mungo, para aumentar teor proteico desta “salada”. O molho é muito diferente de muitos que já experimentei, e utiliza manteiga de amendoim, molho de soja e sumo de lima, ingredientes que nunca imaginei que pudessem combinar, mas resultam muito bem neste prato fresco. Por fim, sugiro que guarneçam o prato com amendoins crocantes, sementes levemente tostadas, e coentros frescos, para dar uma textura e aroma ainda melhor a esta versão do Pad Thai!

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Comida de conforto e uma minestrone

Caem os primeiros aguaceiros da estação, e as couves ficam mais tenras, as abóboras crescem, e tiram-se as estacas do feijão, umas das últimas culturas do verão. Aproveito o feijão branco fresco para fazer as primeiras sopas e estufados, enquanto o restante é guardado no congelador para os próximos meses. Já restam poucos ingredientes do verão, mas uma courgette perdida no frigorífico, umas cenouras, o feijão, e os últimos tomates deixados a amadurecer no balcão podem fazer um prato fabuloso.

Com poucos ingredientes, e o tempero certo, podemos fazer pratos simples, saborosos e económicos. E a minha última viagem por Itália veio a comprovar isso, onde a paciência na cozinha, e a qualidade dos ingredientes parece ser a chave para os melhores pratos, mesmo nas sopas mais simples, como a Minestrone.
Minestrone
Minestrone, como o próprio nome indica, é uma sopa com substância, ou seja, é uma sopa rica porque contém vegetais variados, leguminosas e por vezes massa, e por isso é bastante saciante. Como é tão rica em vegetais, o seu conteúdo pode ser variado consoante as estações, por isso a receita que vos partilho foi pensada durante esta fase entre o verão e o outono, mas sugiro que adaptem a receita aos vegetais que tiverem disponíveis.

Este género que sopas rústicas fazem parte do meu menu semanal com muita frequência durante os meses mais frios. É uma comida reconfortante, e é por isso, a minha “comfort food” preferida. E parece que sabe ainda melhor servida em tigelas individuais, com ervas aromáticas, ou com uma colher generosa de molho pesto bem carregado no manjericão (no caso da Minestrone), e com uma fatia de pão caseiro de cereais ao lado para “limpar” a tigela do molho rico que teimou em fugir às colheradas.
Minestrone + pesto + bread (mais…)