Malagueta

Laksa de batata-doce, tofu e espinafres

Recebi no ano passado o novo livro do Jamie Oliver “Receitas Saudáveis”, mas só agora tive oportunidade de vos partilhar uma sugestão inspirada numa receita do livro.
Uma das receitas que me saltou imediatamente à vista foi a de “Laksa de abóbora no forno”. Não é vegetariana, mas isso não me impediu de puxar um bocadinho pela criatividade e elaborar um prato completamente diferente, mas igualmente empolgante. Na verdade, quando me sugerem a divulgação de um livro, gosto de lhe dar sempre um toque pessoal, e pegar numa técnica, ou, como neste caso, numa mistura de sabores de uma receita, e adaptar às ideias que vão surgindo na minha cozinha, como aconteceu neste caso.

Depois de conhecer a versão do Laksa de Jamie Oliver, verifiquei que era possível recriar este caldo aromático com os ingredientes que tinha disponíveis, não perdi tempo e coloquei em prática a minha versão.

Sweet potato laksa3
Vou ser sincera, conheço muito, muito pouco da culinária tradicional do Sudeste Asiático, mas penso que o Laksa se trata de um caril/caldo de sabor rico, cuja base é o leite de coco, e é tradicionalmente servido com noodles de arroz, e peixe, frango ou camarões.

Tentei trazer alguns destes sabores deliciosos da culinária do Sudeste Asiático para a minha cozinha, mas sinceramente não faço ideia se este molho que vos partilho hoje será igual ao tradicional. Gosto de pensar que sim, que vão um pouco de encontro ao original, e por isso coloquei algum esforço na elaboração da pasta do laksa, e usei especiarias inteiras (previamente tostadas) e alguns ingredientes menos comuns na minha cozinha. Obtive uma pasta aromática, mas um pouco apurada, por isso, apenas usai metade para o caldo. A restante pasta pode ser guardada no frigorífico, e consumida até uma semana depois de preparado.
Para fazer o caldo, juntei a pasta de Laksa, um pouco mais de leite de coco, açafrão-das-Índias e os “noodles”. Por fim, servi numa taça com tofu cortado em cubos (que fritei ligeiramente antes de adicionar, para dar mais firmeza), espinafres, que imediatamente ficaram amolecidos com o calor do caldo quente, coentros frescos e amendoins.

Laksa de batata-doce
A ideia dos noodles de batata-doce surgiu depois de pensar em estratégias divertidas para o meu irmão mais novo incorporar mais vegetais no prato. E, depois de ter experimentado usar cenoura e curgete no espiralizador, lembrei-me de experimentar a batata-doce, porque achei curioso “espiralizar” um tubérculo. (Ah, só por acaso, depois de ter experimentado e fotografado a receita, também surgiu esta sopa com a batata-doce preparada da mesma forma, da Sarah do My New Roots, que não podia deixar de referir, porque parece deliciosa).

Se por acaso não acharem prática esta ideia dos “noodles”, ou simplesmente não gostarem de batata-doce, é claro que podem recorrer à massa de trigo ou noodles (de arroz ou trigo-sarraceno…). Apenas achei que seria interessante esta ideia porque pessoalmente gosto de molhos densos e aromáticos como este, e batata-doce (ver Caril de lentilhas e batata-doce).

Sweet potato laksa
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Abóbora assada com salada de feijão preto, nozes e chili

Abóbora assada com feijão preto3
A receita que vos partilho trata-se de uma salada (morna) de feijão preto com abóbora assada. Eu sei que tenho partilhado várias receitas com este hortícola, mas por aqui tentamos usar essencialmente os vegetais da horta, e este Outono trouxe-nos bastantes abóboras, que ainda se conservam… Mas desta vez temperei a abóbora com algumas especiarias quentes, como cominhos e canela, e levei ao forno para dourar. Para quem não tiver abóbora, garanto-vos esta receita também fica óptima com cenoura cortada em tiras longitudinais, ou batata-doce, ainda com casca.
Acompanhei a abóbora assada com feijão preto temperado com chili picadinha e nozes, uma ideia inspirada numa receita de “salsa” de nozes que aprendi a fazer recentemente. Temperei com sumo de lima, mas podem substituir por limão, se não tiverem limas.
Para dar alguma frescura à salada, fiz um molho de coentros, que se pode fazer facilmente numa almofariz, (ou numa tábua, se gostarem de praticar a técnica de faca, ou num processador de alimentos pequeno), com os coentros bem picadinhos, um dente pequeno de alho e azeite. Se não gostar de coentros pode substituir por salsa.
Por fim, o iogurte natural (de soja ou outro) é opcional, mas ajuda a ligar os diversos elementos desta salada. Se por acaso não quiserem juntar o iogurte, aqui fica uma ideia para o substituir e fazer um prato igualmente interessante e delicioso: esmagar 1 abacate com um garfo até ficar reduzido a puré, envolver ligeiramente o molho de coentros, e servir a par desta salada.

Abóbora assada com feijão preto7

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Legumes fermentados – Kimchi

Os legumes fermentados já não são uma novidade por aqui. Apresentei-vos na forma de beterraba fermentada já em 2013, mas só recentemente é que os comecei a preparar com mais frequência, depois de entender o porquê de todos os passos, ver os seus benefícios, e depois de conhecer outras técnicas mais saborosas de preparar os legumes fermentados, como o kimchi.

kimchi
O kimchi trata-se de um preparado tradicional e emblemático na cultura Coreana, que, segundo o Codex Alimentarius, é um produto fermentado a partir de repolho napa (um tipo de couve chinesa), previamente salgado, misturado com vários condimentos, e que é sujeito a um processo de produção de ácido láctico a baixas temperaturas. Pode incluir também outros vegetais como rabanetes e pepino (…) e condimentos como o alho, cebolinho, chili, molho de peixe ou camarão, gengibre e sal, e a fermentação é realizada a baixas temperaturas para assegurar a preservação e maturação.

Devo admitir que este género de processos suscitam-me algum fascínio porque se trata de uma fermentação espontânea, sem adição de fermento, mas que resulta no crescimento (quase seleccionado) de microrganismos ácido-lácticos como espécies de Leuconostoc e Lactobacillus durante a preparação do kimchi. E, mais importante, a variação das condições de fermentação, e a impossibilidade de controlar a comunidade microbiana leva a um sabor completamente diferente de tentativa em tentativa de preparação de kimchi.

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Só comecei realmente a pensar no porquê da preparação tão minuciosa dos vegetais fermentados quando uma amiga do yoga, me disse que tinha investigado algumas características dos Lactobacillus. E enquanto falavamos: “… sendo os Lactobaccilus anaeróbios facultativos, toleram concentrações baixas de oxigénio (…) são tolerantes ao sal…” – os meus olhos até se arregalaram quando finalmente descobri alguém que também partilha a mesma curiosidade acerca da fermentação (e de experiências culinárias no geral), ao mesmo tempo que todos os passos da fermentação de legumes faziam sentido de um ponto de vista microbiológico, e já não passavam de pura magia! Mas como é que eu tive microbiologia e não tinha pensado nisto?!

Sucintamente, a fermentação é iniciada com vários microrganismos presentes nos vários ingredientes (crus), mas gradualmente a fermentação é dominada por bactérias ácido-lácticas como as do género Lactobacillus. É adicionado inicialmente o brine (água com sal, ou salmoura), e à medida que os açúcares naturalmente presentes nas células vegetais se difundem no meio, as bactérias metabolizam-nos em ácidos orgânicos, que diminuem o pH do meio, o que constitui uma barreira para o crescimento de fungos e outros microorganismos que naturalmente levariam à degradação dos vegetais. As condições de anaerobiose e presença de sais também constituem uma barreira para este efeito. Curiosamente o alho também tem um efeito anti-microbiano sobre alguns microrganismos patogénicos, assim como algumas espécies de Lactobacillus parecem produzir durante o processo de fermentação compostos com actividade anti-microbiana.

A nível nutricional, o kimchi preserva a vitamina C presente nos vegetais (devido à anaerobiose), e o conteúdo em vitaminas do complexo B aumenta. O kimchi, sendo um produto obtido a partir da lacto-fermentação de vegetais consumido cru, é considerado uma boa fonte de bactérias potencialmente benéficas e viáveis, e, entre estas, particularmente os lactobacilos são do nosso interesse, pois a literatura sugere que várias espécies de lactobacilos são responsáveis pela exclusão de patogénicos, produção de substâncias bioactivas, e parece também auxiliar nas funções digestivas.

Por fim, o kimchi combina os sabores acre, picante e pungente, que vai bem com acompanhamentos mais neutros, como arroz cozido, tofu, leguminosas (…). Neste caso servi com legumes grelhados (cogumelos e beringela), e tempeh grelhado, ervas aromáticas e amendoins tostados.

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