Os vegetarianos têm maior risco de vir a ter um AVC?

Os vegetarianos têm maior risco de vir a ter um AVC?

Talvez já se tenham deparado, recentemente, com algumas notícias dedicadas aos resultados do estudo recente da coorte EPIC-Oxford. Em torno do descrédito e alarmismo que percecionei, achei que poderia ser interessante deixar-vos um sumário deste trabalho.

Os estudos atuais têm reportado associações sobretudo positivas em relação às dietas vegetarianas e fatores de risco de doenças crónicas. Em termos de outcomes, uma meta-análise de 10 estudos coorte reportou um efeito protetor significativo em relação à doença cardíaca isquémica (DCI), mas não no total das doenças cardio e cerebrovasculares [1]. O recente estudo da coorte EPIC-Oxford veio tentar fornecer-nos mais alguns dados, e analisou a associação entre o padrão alimentar vegetariano e o risco de DCI e AVC (pois, até à data, não tínhamos dados relativamente à incidência de AVC, e aos 2 subtipos de AVC).

O estudo contou com um total de 48 188 participantes classificados em 3 padrões alimentares distintos: “comedores de carne” (participantes que reportaram consumir carne, independentemente de comerem peixe, lacticínios ou ovos), “comedores de peixe” (participantes que apenas não consumiam carne) e vegetarianos (grupo que também incluía os veganos, e que pressuponha a exclusão da carne e pescado).

Após ajustar para os fatores confundidores associados ao estilo de vida, os “comedores de peixe” e vegetarianos apresentaram 13% e 22% menor incidência de DCI do que os “comedores de carne”, respetivamente. A associação para a DCI foi atenuada depois de ajustar para fatores de risco reportados (como o colesterol total aumentado, hipertensão, diabetes e IMC). Por oposição a este efeito protetor, os vegetarianos tiveram uma incidência 20% superior de AVC (HR 1.20, 1.02 a 1.40) relativamente aos “comedores de carne”; esta associação não foi estatisticamente significativa entre os grupos e, deveu-se principalmente a uma maior incidência de AVC hemorrágico. Esta associação não foi atenuada depois do ajuste para os fatores de risco.

Em termos absolutos, estes resultados equivalem a menos 10 casos de DCI e a mais 3 casos de AVC nos vegetarianos por 1000 indivíduos num período de 10 anos, relativamente ao grupo dos “comedores de carne”.

Relativamente ao agrupamento dos dados dos veganos e vegetarianos, no suplemento do estudo podem constatar que, quando analisados apenas os participantes que seguiam um padrão alimentar vegano, os resultados de incidência de doenças cardíaca isquémica e AVC não foram estatisticamente significativos, possivelmente devido ao número reduzido de casos em veganos.

Entre as possíveis explicações, especuladas pelos autores para o aumento da incidência de AVC, destaco alguns resultados prévios desta coorte, nomeadamente níveis mais baixos de vitamina B12 [2] (análise transversal, onde 52% dos veganos apresentavam défice de B12), vitamina D [3] e ácidos gordos n-3 (EPA e DHA) [4] nos vegetarianos.

É evidente que estes resultados derivam de um único estudo observacional, do qual não é possível estabelecer uma relação causa-efeito. Os estudos epidemiológicos são propensos a erros sistemáticos dado o recurso a questionários de frequência alimentar (onde os dados da ingestão alimentar são reportados pelos próprios participantes), e a possíveis mudanças nos padrões alimentares dos participantes durante o tempo de seguimento. São também necessários mais trabalhos para entender os mecanismos e, se estes resultados são aplicáveis a mais populações de vegetarianos. No entanto, é importante reconhecer que este estudo apresenta uma amostra considerável, um período de seguimento significativo, ajuste para variáveis confundidoras e análise de sensibilidade para confirmar a robustez dos resultados.

Chegar a conclusões relativamente aos benefícios de um dado padrão alimentar é complexo, pois é muito difícil dissociar a dieta do estilo de vida dos participantes. Neste trabalho, os resultados modestos são interessantes, mas não conclusivos. Os vegetarianos e veganos não devem ver neste estudo uma razão para mudar os seus padrões alimentares (!), mas, devem procurar ter uma alimentação bem planeada e ter um estilo de vida saudável, de forma consistente.

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Referências:

[1] Dinu M, Abbate R, Gensini GF, Casini A, Sofi F. Vegetarian, vegan diets and multiple health outcomes: A systematic review with meta-analysis of observational studies. Crit Rev Food Sci Nutr, 2017;57:17, 3640-3649
[2] Gilsing AM, Crowe FL, Lloyd-Wright Z, et al. Serum concentrations of vitamin B12 and folate in British male omnivores, vegetarians and vegans: results from a cross-sectional analysis of the EPIC-Oxford cohort study. Eur J Clin Nutr 2010;64:933-9.
[3] Crowe FL, Steur M, Allen NE, Appleby PN, Travis RC, Key TJ. Plasma concentrations of 25-hydroxyvitamin D in meat eaters, fish eaters, vegetarians and vegans: results from the EPIC-Oxford study. Public Health Nutr 2011;14:340-6.
[4] Rosell MS, Lloyd-Wright Z, Appleby PN, Sanders TA, Allen NE, Key TJ. Long-chain n-3 polyunsaturated fatty acids in plasma in British meat-eating, vegetarian, and vegan men. Am J Clin Nutr 2005;82:327-34.

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